A neurologista do Hospital Universitário Pedro Ernesto (Hupe-Uerj) Christianne Martins Bahia foi reconhecida internacionalmente com o principal prêmio “New Investigator Award” do Congresso World Sleep 2025, realizado em setembro, em Singapura. Ela foi a única brasileira entre os vencedores, destacando-se com o trabalho de pesquisa sobre medicina de precisão aplicada a doenças neurológicas raras.
O estudo premiado, intitulado “Uso da medicina de precisão em pacientes brasileiros com hipersonias primárias através da hipocretina e do sequenciamento de HLA (antígeno leucocitário humano) em alta resolução: insigths de uma população multiétnica”, representa um avanço significativo na abordagem personalizada de condições como a narcolepsia e a hipersonia idiopática. A pesquisa já havia sido reconhecida anteriormente, em formato de pôster e com os resultados preliminares, em uma edição anterior do mesmo congresso.
“A medicina de precisão é a medicina personalizada que tenta não só diagnosticar a doença, mas entender quem é a pessoa com aquela doença e baseada não só nos sintomas e história familiar, mas também em biomarcadores, estilo de vida, genética, questões socioculturais, entre outros. Porque quanto mais informação você tem, mais você consegue subdividir aquela população em subgrupos e oferecer tratamentos personalizados, mais eficazes e com menos efeitos colaterais, explica Christianne Bahia, que coordena o Centro de Pesquisa em Hipersonias do Hupe-Uerj.
A pesquisa premiada faz parte da tese de doutorado da médica e estava sendo desenvolvida desde 2021, no Hupe-Uerj, com pacientes por meio do modelo de medicina participativa em parceria com a Associação Brasileira de Narcolepsia & Hipersonia Idiopática (Abranhi).O estudo integra um projeto maior da FAPERJ sobre genética em doenças raras, coordenado pelo professor Luiz Cristóvão Porto: “Nesse braço da pesquisa, estamos desenvolvendo a parte da hipersonias primárias e genética, trazendo dados inéditos dessas doenças do sono, a narcolepsia e hipersonia idiopática na população brasileira como: estudo do HLA em alta resolução, comparação com o banco de dados do REDOME que é o banco nacional de doadores de medula óssea e usando também, pela primeira vez, o critério de biomarcador (padrão-ouro) que a hipocretina é para diferenciar os subgrupos. Com isso, temos uma classificação muito mais precisa que permitirá estudos futuros de cada tipo de hipersonia e suas peculiaridades, promovendo avanços no conhecimento dessas doenças ainda tão invisibilizada. Realizamos ainda todo o resto da investigação no Serviço de Neurologia do hospital, com consulta especializada em medicina do sono, polissonografia, teste de latência múltipla e agora começaremos a actigrafia. Somos referência no Estado do Rio de Janeiro e temos recebido pacientes de todo o Brasil, até de Manaus, que viajam quilômetros em busca de uma resposta para seus problemas de saúde pois não encontram este serviço em sua região , ainda mais de forma gratuita e universal como é feito aqui pelo SUS”, explica Christianne Martins. O doutorado foi orientado pela professora Soniza Vieira Alves-Leon, pelo programa de pós-graduação da Universidade Federal Fluminense.
A meta agora, segundo a pesquisadora é expandir os estudos, ampliando as parcerias para que os avanços da Medicina de Precisão cheguem mais rapidamente ao Brasil, garantindo que os pacientes com doenças raras, como a Narcolepsia e a hipersonia idiopática, tenham acesso ao que há de mais moderno na ciência.
Um ano de conquistas
Além do reconhecimento internacional, Christianne Martins celebra também outras importantes realizações em 2025: se tornou de professora da Faculdade de Ciências Médicas da UERJ, obteve a certificação internacional de especialista em medicina do sono pela World Sleep Society e conclui o Fellowship em pesquisas de sono em parceria com a Stanford University (International Sleep Research Trainning Program), um programa internacional que conecta pesquisadores de países em desenvolvimento com mentores de grandes centros na Europa e EUA, tendo como mentor o professor Emmanuel Mignot, referência mundial na temática das hipersonias e neuroimunologia.
“Para muitos pode ser só mais um papel, mas, para mim, que sempre valorizei o estudo, é como ganhar um Oscar ou uma medalha olímpica. Receber o sorriso orgulhoso da vovó, da minha mãe e do resto da família, ser exemplo para meus filhos para valorizar a educação, conseguir contatos preciosos que dão esperança para meus pacientes, ter o reconhecimento e o incentivo de meus professores e saber que meu pai, de onde ele estiver, está feliz e em paz pelo legado que ele deixou para mim. Esses sentimentos, essas reações, não tem preço, é a riqueza que levo no meu coração. Se minha história já servir para inspirar alguém a correr atrás dos seus sonhos, já valeu minha vida”, conclui a neurologista.




